domingo, 25 de novembro de 2007

Ainda existe um pouco de perfume no ar, a única prova que já passou outra pessoa por aqui. Tudo no mesmo lugar, ainda não sei se devo ir ou esperar até aquela porta se abrir. Luzes piscam lá fora, carros passam devagar e algumas pessoas ainda andam pelas ruas.
Aqui dentro tudo é muito vazio, outro hotel vagabundo feito para um vagabundo. Um dia eu tive sonhos e ambições como qualquer pessoa normal, não sei se hoje eu teria coragem para encarar ela de novo. Ainda mais que ela sabe que estou vivo.
Minhas memórias boas se foram, as ruins também. Se meus documentos não estivessem guardados no banco junto com a herança dos meus pais eu não seria ninguém, mas sou só um vagabundo. Meus olhos ainda podem ver o que ninguém quer ver, eu caminho pelas ruas que ninguém se atreve a passar e eu vivo como outro ninguém.
A única coisa que me faz pensar nisso é esta lua, amarelada e encoberta por nuvens. Os ventos avisam a chegada de um novo tempo. Tempo de frio, lutas e morte. Nem mesmo nos piores tempos eu tive medo mas agora é diferente. Algo diferente está para acontecer, um maltrapilho bêbado já me avisou. Só falta encontrar forças para mudar as coisas.
Ou ir para outro lugar, continuar andando a esmo. Sempre podemos fugir? Sempre podemos ir a algum lugar onde não nos conheçam? Sempre podemos continuar uma vida fadada ao fim trágico de uma tragédia inevitável?
As respostas são simples, sim ou não. Mas não existe resposta para o que ainda será perguntado. As estrelas estão voltando. Assim como previsto, as luzes se apagam e uma musica começa. Alguém está tentando cumprir uma profecia escrita em sangue por outro messias leproso enquanto eu vejo a lua se despir de seu setim.
Esses pensamentos me dão ância de vômito, sinto minhas entranhas revirando e mais uma vez estou no chão. Um lugar de onde nunca sai depois que eu cai. Depois que eu desisti, depois que eu abri mão de tudo o que eu sonhava, depois que eu abandonei minha fé, depois que eu entreguei tudo à você e tranquei minha vida num cofre.
Não existe mais nada além de um chão duro e um tapete imundo neste quarto, as paredes estão mais próximas do que nunca, meus olhos se fecham mas eu continuo vendo esse mesmo mundo. Por mais que eu tente me levantar não existe motivo para levantar, meu corpo sabe. E ele não se meche, continua aqui parado, se contorcendo por dentro assim como minha alma.
Durmo acordado, um mal que me aflige todas as noites, mesmo antes de te conhecer. De dia parece que tudo tem mais vida, mais calor, mais sabor. Mas eu não pertenço a esse mundo, meu lugar é sob a luz da lua, andando como um cachorro qualquer, sem rumo e sem intenção de voltar.
Por mais que eu tenha coragem, falta algo. Algo, alguma coisa, aguma pessoa ou uma palavra. Algo que me mostre o que devo fazer. Não saio fazendo o que quero, faço o que posso. Agora eu posso comer ou ir beber. Comer é caro nessa cidade, acho que vou beber mesmo. Não posso acabar com minha vida, se eu der três passos aqui na avenida tudo acaba.
Eu sei que tem algo me esperando, como uma missão, uma jornada, um dever que somente eu posso fazer. Não é matar alguém, nem descobrir algo novo.. É algo maior.

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